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30/07/2010

Sustentabilidade da pesca no Pantanal é discutida por pesquisadores do CPP

Centro de Pesquisas do Pantanal
Cientistas da Rede de Pesca do Centro de Pesquisas do Pantanal se reuniram nesta terça-feira, 20, em Chapada dos Guimarães para discutir nove projetos desenvolvidos em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. “A pesca é uma atividade que concentra fatores ambientais, econômicos e sociais. Nosso objetivo é que o conhecimento científico colabore para a sustentabilidade do setor em seus diversos aspectos”, resume o professor Paulo Teixeira de Sousa Jr., pesquisador sênior do CPP.

Nos dois estados, a cadeia da pesca é responsável pela subsistência de muitas famílias – seja no segmento comercial ou no turístico – mas as informações sobre o setor ainda são insuficientes para traçar um cenário fiel da atividade. Para suprir essa lacuna, foi iniciado um censo da pesca nos dois estados. “Buscamos dados como a situação dos estoques pesqueiros e como a atividade se desenvolve. Com esse material, temos como ajudar na formulação de políticas públicas para o segmento”, explica o professor Agostinho Catella, coordenador do sub-projeto. As condições sociais e econômicas dos pescadores da região do Pantanal também são alvo de um projeto específico, bem como a questão dos envenenamentos e traumas causados por animais aquáticos nesses trabalhadores.

A produção de iscas é outro assunto que os cientistas estão estudando. Em Mato Grosso, eles desenvolvem uma ferramenta para avaliar o risco de extinção de diversas espécies de isca. “É uma ferramenta de modelagem para prever como determinada população de isca vai estar no futuro, dependendo da estratégia de manejo adotada. Nesse momento, estamos realizando os estudos a partir da Tuvira, mas a meta é contribuir para a conservação de todas as espécies com potencial para iscas ”, adianta a professora Lúcia Mateus, coordenadora do sub-projeto.

Em Mato Grosso do Sul, a pesquisa é voltada para formulação de tecnologias para reprodução e criação de iscas em cativeiro. “Nosso interesse é criar procedimentos que sejam acessíveis e possam ser adotados pelos isqueiros. De um lado, vemos a possibilidade de melhorar as condições de vida dessas pessoas e, de outro, podemos diminuir a pressão sobre os estoques de iscas na natureza”, ressalta a professora Lilian de Arruda, coordenadora do sub-projeto que tem a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Ecoa – Ecologia e Ação, Ibama e Embrapa Pantanal articulando e pesquisando no Pantanal Sul. O trabalho também foi responsável pela descoberta de uma espécie camarão de água doce e diagnóstico social e ambiental dos isqueiros da região da comunidade do Porto da Manga e da Barra do São Lourenço. Os cientistas descobriram que a espécie como “camarão da Amazônia” na verdade tinha características bem diferentes das do animal com o qual era identificada. “Hoje, nós estamos redescrevendo a espécie, que está sendo chamada agora de camarão do Pantanal”, completa Lilian.

A ampliação do conhecimento pode trazer transformações até sobre a Piracema. Um dos estudos dá indícios de que o período de defeso deveria ser alterado em Mato Grosso do Sul. A cheia – que é o gatilho biológico para a reprodução dos peixes – tem seu pico em momentos diferentes nos dois estados. No Pantanal norte, todos os fatores que favorecem a maturação sexual acontecem ao mesmo tempo: chuvas, elevação da temperatura e aumento máximo do nível do rio ocorrem entre janeiro e fevereiro. Já no sul, o auge da cheia é somente entre maio e junho. “Estamos trabalhando com peixes de pequeno porte, como lambari, pequira, mato grosso, cascudo e tuvira. Neles, já encontramos evidência que a maturidade para reprodução acontece num momento diferente em Mato Grosso do Sul. Mesmo que essa situação não seja igual com espécies maiores, temos que pensar em estratégias de proteção, pois eles são a base da cadeia alimentar”, destaca Yzel Rondon, coordenador do sub-projeto.

A conexão entre o do uso do solo na planície alagável pelos pecuaristas e a distribuição de peixes mostra a preocupação com as condições para preservação das espécies. “Queremos verificar, por exemplo, se a introdução de pastagem exótica altera o volume da comunidade de peixes.

Sabemos atualmente que os estoques são maiores em regiões de reserva”, destaca o professor Jerry Penha, coordenador do sub-projeto. Outro projeto voltado para a conservação da biodiversidade é a análise genética do Dourado e da Jurupoca em todo o Pantanal. “Vamos avaliar a variabilidade genética das espécies selvagens. O excesso de cruzamento entre espécies diferentes tende a produzir animais menos resistentes, colocando os estoques em risco. Com esse estudo, vamos avaliar o grau de pureza genética, o que pode ser o próximo passo para a produção comercial tanto do dourado quanto da jurupoca”, analisa o professor Celso Benites, coordenador do sub-projeto.

As tecnologias para agregar valor do pescado completam o trabalho atual da rede de pesca do CPP. Em estudo, está a elaboração de produtos cárneos a partir da piraputanga. Entre os derivados do peixe, os cientistas já desenvolveram formulações de hamburguer, patê, empanado, quibe e defumado. Eles também elaboram parâmetros para melhorar a duração do pescado e garantir a qualidade da carne. “Temos como objetivo transferir essa tecnologia para as empresas e as cooperativas e associações de pescadores num prazo entre cinco e sete anos. Também queremos adaptar os equipamentos para outras espécies de peixes e diversificar o máximo possível os produtos cárneos. Os consumidores, cada vez mais, vão buscar produtos de preparo mais fácil e vamos nos antecipar a essa demanda”, elencou o pesquisador, Jorge de Lara, coordenador do sub-projeto.

O comitê científico que avaliou o trabalho foi formado pelos pesquisadores Luiz Carlos Gomes e Angelo Agostinho, da Universidade Estadual de Maringá, e por Rodrigo Roubach, coordenador geral de planejamento e ordenamento da aquicultura em águas da união continental do Ministério da Pesca e Aquicultura. “Os trabalhos da rede vão produzir o embasamento para o manejo sustentável, o que é fundamental para o setor. Não se pode mexer com a natureza sem preparo.

Com embasamento científico podemos evitar a ocorrência de equívocos enormes”, destacou o professor Angelo Antonio.




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