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18/03/2005

Soja - Mina de ouro ou buraco sem fundo para agricultura familiar?

Texto apresentado na Conferência de Foz do Iguaçu.

Os agricultores familiares da região sul do país foram forçados pela seca a acordar de um sonho de várias gerações, que voltou com força total  nos últimos cinco anos - o de enriquecer com a soja. Não há como negar que, nos últimos anos, o produto tem sido o filão de ouro da agricultura brasileira. Um dos responsáveis pelos sucessivos superávits na balança comercial. Mas a que preço???  O Brasil inteiro vem acompanhando nos últimos meses, o agravamento da seca na região sul do país, os recordes de temperatura e de prejuízos nas lavouras. Hoje quase 600 municípios dos três estados estão em situação de emergência. Só com a soja, a perda dos agricultores pode chegar a 60%, no Rio Grande do Sul.
 
E por que isso está acontecendo? Esta é uma longa história. Começa na década de 70 com a Revolução Verde, a mecanização cada vez mais intensa e o uso de insumos químicos, bem como o estímulo às culturas de exportação, em especial a soja. O modelo da monocultura tornou-se, então,  um dos motores não só da falência e da exclusão, mas do empobrecimento dos agricultores, da concentração das terras e da degradação do meio ambiente. Um modelo que, há cinco anos,  inaugurou um novo ciclo muito mais forte, associando a nova tecnologia dos transgênicos a um aumento de preços no mercado internacional.
 
Na década de 50, o  agricultor do Rio Grande do Sul produzia milho,  mandioca, trigo,  feijão, criava porco, galinha, gado  e metade da sua propriedade era coberta pela mata. Muitos agricultores construíam suas casas com os pinheiros e outras árvores da propriedade. Reservavam espaço  para que os filhos também pudessem ter sua terra e construir a sua casa. A propriedade assumia múltiplas funções,  garantindo a  sobrevivência da família e, o que é melhor, preservando as fontes de água, os banhados, os rios e a cobertura de mata.
 
A soja conseguiu desmontar tudo isso.  Grande parte dos agricultores familiares caiu no conto do enriquecimento fácil, adotou a monocultura e passou a comprar na cidade o que antes produzia em sua propriedade. Mesmo assim não enriqueceu. Os principais beneficiados foram os grandes empresários agrícolas e os complexos agroindústrias. Os agricultores familiares que aderiram a este modelo de produção  se endividaram, porque pegaram financiamento para comprar trator, insumos, calcário, etc  A maioria faliu, foi embora para as cidades ou para as regiões de fronteira agrícola.  E o mais incrível desse processo é que o sonho de ficar rico teve um efeito contrário, o empobrecimento.
 
E o novo boom da soja veio ainda mais nocivo, há cinco anos. Com a crise da safra americana,  o aumento da procura de soja na Europa e  o novo mercado da China,  o preço do produto explodiu, subiu  de R$ 25,00  para R$ 55,00. E aí o que aconteceu? O agricultor familiar que na década de 80, ressabiado,  abandonou a monocultura e voltou para um sistema mais diversificado, caiu mais uma vez no conto do milagre, que desta vez veio com um atrativo especial, uma semente que as empresas vendedoras apregoavam ter "alta produtividade, menor custo e  livre de pragas"-  a semente transgênica. 
 
A tecnologia não seria paga. O agricultor só teria que  comprar as primeiras sacas de soja e, depois, iria reproduzir a soja em sua propriedade. Com tantas vantagens muitos agricultores  acabaram  com os parreirais, com a erva mate, com as pastagens, com o que ainda restava de mata na propriedade para plantar soja. E o que está acontecendo hoje? A Monsanto  que começou  cobrando  R$ 0,60,  em apenas um ano dobrou o valor, exigindo agora R$ 1,20 por saca de 60 kg. Isto vale também para os agricultores que tiveram a sua produção convencional ou orgânica contaminada. E ela não quer cobrar na venda da semente, por não ter como controlar. Ela quer cobrar no mercado, nos silos. Os agricultores familiares  iludidos, acreditaram na proposta milagrosa de redução de custos e aumento da produtividade. Contudo, numa situação adversa como a estiagem no Sul neste momento, ela é muito mais frágil e a quebra  muito maior.
 
O agricultor que entrou nessa virou peça de uma engrenagem, de uma máquina comercial. Desmontou a estrutura de sua propriedade, acabou com os rios, os banhados, as pastagens, os parreirais, destruiu até os barrancos da estrada para plantar soja. Hoje quem anda 100 quilômetros pelas estradas do Rio Grande do Sul não vê uma mata! É só soja. Será que os 42 graus de temperatura registrados neste verão no estado não tem nada a ver com esse estrago que a monocultura provocou  no Rio Grande do Sul? Eu tenho certeza que sim. E se  hoje estamos com esse desequilíbrio, imagina o que pode acontecer na Amazônia, onde a soja esta avançando  agressivamente nos últimos anos.
 
Nesta quinta-feira, dia 17, temos uma ótima oportunidade de mostrar ao povo brasileiro e ao  mundo  as conseqüências do que está sendo feito hoje com as populações e com o meio ambiente. Mostrar que o atual modelo dominante de cultivo da soja não tem sustentabilidade. Não resolveu o problema da fome no Brasil, nem no mundo. Faremos isso durante 1ª Conferência do Fórum Sobre Soja Sustentável, que vai reunir em Foz do Iguaçu agricultores, empresários, comerciantes, consumidores e instituições internacionais.  No nosso entender, a discussão sobre soja deve ser ampliada para um debate sobre um modelo agrícola e agrário sustentável
 
Vamos estar em Foz do Iguaçu para falar ao mundo da necessidade dos governos, entidades e empresas perceberem a importância de se engajarem não só em preservar a Amazônia e o Cerrado, mas em fazer um debate sobre desenvolvimento sustentável que inclua os anseios, os direitos e os deveres da sociedade, bem como para possibilitar a  produção de soja de qualidade, respeitando o meio-ambiente e assegurando uma renda justa ao produtor.
 
Portanto, o mundo precisa compreender que para suprir a demanda por alimentos de qualidade, o modelo sócio-economico tem que ser outro. E  o consumidor precisa  participar desse processo e fazer sua opção: quer  um alimento transgênico ou natural?? Na primeira opção, segue o atual sistema dominante de produção, que para nós é insustentável. A segunda opção exige um sistema de produção que respeite o meio-ambiente, não exclua as pessoas e distribua renda. Mas isto tem um custo.

Não queremos simplesmente negociar preço, mas  firmar um compromisso:  os agricultores familiares se comprometem a ter uma propriedade diversificada, a produzir alimentos saudáveis, gerando emprego e respeitando o meio-ambiente. E o consumidor, que desejar alimentos saudáveis em sua mesa,  paga um preço justo, viabilizando um modelo de produção, que não concentre riqueza, terras e nem desmonte nossos ecossistemas. É neste novo patamar de negociação que estamos apostando.
 
*Altemir Tortelli, 39 anos, é agricultor familiar,Coordenador Geral da  Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul- Fetraf-Sul, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e do  CONSEA.





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