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25/06/2003

Seminários mostram o custo das queimadas e como usá-las de forma controlada

Fonte: Estação Vida 23/06/03
Começou no dia 22, no município de Novo Mundo, norte de Mato Grosso, uma série de vários seminários na região sobre a dinâmica do uso do fogo na Amazônia, promovido pelo Programa Fogo: Amazônia Encontrando Soluções em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), entidade não-governamental sem fins lucrativos, que há quase 10 anos lidera a maioria das pesquisas sobre queimadas no Brasil.

Os seminários são destinados a agricultores (pequenos e grandes) e autoridades municipais e visa principalmente discutir como fazer o manejo do fogo de forma controlada e outras técnicas agrícolas que estão eliminando a queima para desmatamentos e limpeza das áreas. Na terça-feira será a vez de Guarantã do Norte, quarta-feira em Carlinda, quinta-feira em Alta Floresta e sexta-feira em Paranaíta. O programa Fogo é financiado pela Cooperação Italiana e coordenado pelo Instituto Centro de Vida - ICV em Mato Grosso, Acre e Pará.

" Não podemos imaginar que rapidamente a atividade agrícola possa se desfazer do fogo. É ilusão. Mas vamos mostrar que aos poucos a queima pode ser descartada", disse o engenheiro agrônomo do IPAM, Ricardo Assis Mello. Enquanto isso " é preciso evitar que o fogo escape e então é preciso manejá-lo, ter o controle da queimada agrícola", explica. Além disso, o IPAM e o Programa Fogo estarão repassando conhecimentos aos agricultores sobre seqüestro de carbono no Brasil e no Exterior e sobre o custo do fogo na agricultura, ou seja, os custos econômicos das queimadas e incêndios florestais na Amazônia.

Relatório
Em recente relatório do IPAM , Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada - IPEA e do Centro de Pesquisa Woods Hole (WHRC) em setembro do ano passado, foi levantado as perdas econômicas que as queimadas acarretam ao Brasil. O estudo é inédito e financiado pela US Agency for International Development - NASA.

O fogo é utilizado pelos agricultores da Amazônia para converter florestas derrubadas em cinzas durante processo de preparo da terra para o plantio. Ainda, auxilia no combate às plantas invasoras de pastagens e limpeza. Estes benefícios do fogo, contudo, são contrabalançados pelos prejuízos que podem causar às propriedades privadas e à sociedade como um todo. Neste relatório, é apresentada uma estimativa dos custos econômicos do fogo na Amazônia, buscando fornecer uma visão mais integrada do papel desta ferramenta agrícola na região.

Na escala das propriedades rurais, as principais perdas advindas do uso do fogo acontecem quando queimadas agrícolas escapam ao controle e atingem acidentalmente áreas vizinhas. Neste caso, se as áreas vizinhas atingidas forem constituídas de pastagens, os prejuízos com a perda do pasto, por exemplo, podem ser contabilizados pelo custo de arrendamento de outras pastagens durante cerca de três meses, tempo este necessário para que o capim queimado se recupere. Ainda, a estes prejuízos devem ser somados aqueles resultantes da destruição de cercas. Se as áreas vizinhas abrigarem florestas o custo econômico pode ser resultado da queima de madeira de valor comercial.

Os prejuízos, no entanto, vão muito além dos limites das propriedades e podem ganhar proporções sociais. Neste sentido, foram estimadas as perdas relacionadas com a liberação de carbono para a atmosfera, a qual provoca prejuízos na economia por contribuir com o aquecimento global, e também as perdas associadas com doenças respiratórias provocadas pela fumaça dos incêndios florestais e das queimadas.

Este estudo foi possível devido às pesquisas extensivas sobre o fogo feitas pelo IPAM, envolvendo entrevistas detalhadas com 202 proprietários rurais da Amazônia, análises de imagens de satélite, e dados inéditos de áreas de incêndios florestais. Estimamos a área total queimada na Amazônia usando dados do satélite NOAA-12 para o período entre 1996 e 1999. Os prejuízos relativos às doenças respiratórias provocadas pela fumaça foram também estudados através de análises econométricas de dados fornecidos pelo SUS.

Os principais resultados contidos neste relatório indicam que as perdas econômicas na Amazônia resultantes da queima de pastagem e cercas variam entre US$12 e 97 milhões por ano. Os incêndios florestais no ano El Niño 1998 atingiram uma área de aproximadamente 30.000 km2, isto é, quase duas vezes a área desmatada anualmente na Amazônia, causando prejuízos pela queima de madeira que variam entre US$ 1 a 13 milhões de dólares. Estas perdas impostas às propriedades rurais representam 0,1 e 0,2% do PIB da Amazônia, e 0,2 a 1,6% do PIB da produção agropecuária da região.

Os prejuízos sociais, contudo, foram maiores. O principal custo econômico provocado pelo fogo na Amazônia provém da liberação de carbono oriundo dos incêndios florestais. Foram 250 mais ou menos 220 milhões de toneladas de carbono emitido por incêndios florestais no ano El Niño de 1998. Em contraste, no ano sem a influência do El Niño de 1995 foram liberadas 16 mais ou menos 13 milhões de toneladas de carbono por este mesmo motivo. As emissões de carbono de 1998 significam um prejuízo econômico de US$ 4,7 mais ou menos 4,6 bilhões. Em 1995, o valor das emissões foi de US$290 mais ou menos US$280 milhões.

Nesta estimativa não está incluída a liberação de carbono pelo desmatamento (corte raso de florestas). A grande variação desta estimativa é devido às incertezas sobre a área de floresta afetada pelo fogo adicionando aí as incertezas sobre o efeito do incêndio florestal no estoque de carbono da floresta. Já as doenças respiratórias podem provocar perdas de US$ 1 a 11 milhões por ano, como resultado de 4.000 a 13.000 internações registradas. As perdas totais anuais causadas pelo fogo na Amazônia, na média, somam 107 milhões de dólares a 5 bilhões de dólares, ou seja, entre 0,2 e 9,3 % do PIB da Amazônia, ou entre 2 e 79% do PIB agropecuário da região.





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