|
Você está em:
| ||
|
14/06/2005
Relatório britânico condena as sementes transgênicasFoto:Agência Brasil por Erik von Farfan* O mais importante estudo sobre o comportamento das plantas transgênicas jamais feito em escala nacional, foi elaborado ao longo de 4 anos pela tetracentenária academia científica britânica, a Royal Society of London, e assestou um golpe mortal à indústria de alimentos geneticamente modificados no Reino Unido e, por extensão, na Europa. O informe, publicado no dia 21 de Março último num dos mais sérios veículos de informação científica, o Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences da Royal Society resultou numa vitória para as plantas convencionais. A série de experiências constatou que as plantas geneticamente modificadas causam sérios danos à fauna e flora silvestre. O documento final é o resultado de uma série de 4 estudos realizados em grande escala em 65 fazendas (Farm-Scale Evaluations - FSEs) com plantação de colza de Inverno, confirmou o destino dos organismos geneticamente modificados (OGM) no Reino Unido: a sua rejeição, ao menos no futuro próximo. Os estudos demonstraram que os poderosos pesticidas que essas plantas tolerariam, causam significativos danos às terras rurais, áreas que hoje se encontram devastadas pela agricultura intensiva. A quarta e última experiência apontou que os OGMs causam graves danos às flores selvagens, borboletas, abelhas e, provavelmente, às aves canoras afetando toda a cadeia alimentar e de reprodução da biodiversidade natural. Plantios com sementes convencionais e sementes resistentes aos agrotóxicos mais conhecidos foram comparados em 65 fazendas diferentes ao longo de todo o Reino Unido. Os resultados foram contundentes revelando que a biodiversidade estava mais bem preservada nos plantios convencionais de colza e beterraba. Paradoxalmente, o mesmo não aconteceu com o milho OGM, sendo que ele, pela pressão popular, não é mais cultivado na Inglaterra. Os cientistas monitoraram cuidadosamente as flores selvagens, gramas, sementes, abelhas, borboletas e outros invertebrados. Os números são impressionantes: ao longo dos 5 anos da experiência, os cientistas analisaram amostras de milhões das denominadas “ervas daninhas”, acompanharam de perto dois milhões de insetos e fizeram 7000 visitas de campo. Apesar de terem encontrado quantidades similares de ervas daninhas nos dois tipos de plantas, as ervas daninhas de folhas largas como as alsinas eram menos predominantes em plantas geneticamente modificadas. Havia menos abelhas e borboletas em plantas transgênicas. Somente uma das 4 experiências demonstrou que o cultivo de plantas geneticamente modificadas pode ser menos prejudicial às aves, flores e insetos do que seus similares não-transgênicos. A experiência foi falha, pois o pesticida que a planta convencional em questão exigia estava já fora banido pela União Européia. Mesmo assim, em 2004, o Governo britânico concedeu uma licença para que uma planta – o milho conhecido como Chardon LL, criado pelo setor químico do Grupo Bayer – fosse cultivada, abrindo caminho para a era dos transgênicos na Grã-Bretanha, apesar dos irados protestos dos ambientalistas. Entretanto, apenas três semanas depois, a Bayer retirou o seu pedido sob a justificativa de que o clima regulatório seria inibitório. Isso aconteceu após o gigante estadunidense da biotecnologia Monsanto, líder mundial em transgênicos, ter se retirado da Europa, parecendo também estar cansado de lutar. Desde então, a indústria de transgênicos na Grã-Bretanha ficou intimidada, apesar de alguns membros do Governo, em particular o Primeiro-Ministro Tony Blair, ter apoiado secretamente os OGMs desde o princípio. A política oficial britânica é descrita como neutra e baseada apenas em informações científicas. Os resultados agora divulgados tornam menos provável que outras grandes empresas agrícolas queiram apostar neste tipo de cultivo e ter que passar por todo o longo processo de experiências – e oposição popular – que o comércio de plantas transgênicas na Grã-Bretanha acarretaria. Em face de esta realidade, o Secretário do Meio Ambiente, Tim Yeo, prometeu que não mais serão cultivadas plantas geneticamente modificadas com intuito comercial até que a ciência prove que elas não são prejudiciais aos seres humanos nem ao meio ambiente; e, principalmente, sem que haja um termo de responsabilidade para os casos de contaminação. Apesar de a experiência científica não ter pesquisado a respeito da catastrófica extinção das aves de fazenda acontecida ao longo dos últimos 50 anos, importantes ornitologistas declararam que os resultados indicam que o cultivo de colza transgênica provavelmente aumentará o problema. O presidente do setor de conservação da Real Sociedade para a Proteção dos Pássaros, David Gibbons, afirmou que os pesticidas usados nas colzas transgênicas mataram as flores selvagens de folha larga, como as alsináceas e as anserinas (erva-de-santa-maria), nutrientes importantes para a alimentação de aves canoras como cotovias, pardais e piscos-chilreiros. “As ervas daninhas de folha larga são uma parte importante da alimentação da maioria das aves de fazenda. Poucos pássaros se alimentam de semente de grama, mas para a maioria a perda das ervas de folha larga seria prejudicial. Estas ervas são importantíssimas para as aves de fazenda e o cultivo contínuo dessa planta traria danos que acabariam com a esperança de revertermos seu declínio”, afirmou o Dr. Gibbons Segundo Les Firbank, do Centro para a Ecologia e Hidrologia de Lancaster, que chefiou o projeto, havia um terço a menos de sementes de flores de folhas largas nas fazendas de transgênicos, em comparação com os lugares onde foram cultivadas colzas tradicionais. “Essas diferenças ainda estavam presentes dois anos depois de a semente ter sido plantada… Então temos uma diferença biológica significativa que se mantém estação após estação”, declarou ele. A semente de colza foi projetada para ser mais resistente ao pesticida que mataria as plantas tradicionais. Isso significa que os fazendeiros poderiam usar herbicidas de múltipla ação. “Todas as evidências que obtivemos das experiências apontam que as diferenças entre os tratamentos se devem aos herbicidas: é da natureza dos produtos químicos”, afirmou o Dr. Firbank. Christopher Pollock, Presidente do Comitê Geral de Trabalhos Científicos, que supervisionou as experiências, declarou: “O que é bom para o fazendeiro nem sempre é bom para as populações naturais de ervas daninhas, insetos, aves e borboletas que também vivem neste espaço. As experiências com plantas transgênicas são um fato único na Grã-Bretanha e esta foi a primeira vez que cientistas avaliaram o impacto ambiental de uma nova forma de cultivo antes que ela fosse posta em prática”. Fundada em 1660, a Royal Society of London é a mais antiga academia científica existente no mundo, sendo também uma instituição não-governamental. No seu quadro de membros atual se contam 65 Prêmios Nobel e 1300 cientistas correspondentes em diversos países. Ao longo da sua história, a instituição promoveu debates históricos entre os quais se destaca a discussão das teorias de Darwin sobre a origem das espécies, a Teoria da Relatividade e o advento do DNA. Isaac Newton, Charles Darwin, Albert Einstein, Francis Crick, James Watson e Stephen Hawking, são – ou foram – alguns dos seus membros mais relevantes. Os quatro testes Teste 2: Beterraba açucareira, Outubro de 2003 Teste 3: Milho, Outubro de 2003 Teste 4: Sementes de óleo de colza semeadas no inverno, Março de 2005 Meio século de debates Junho de 1998: O Príncipe Charles incita o debate ao declarar que não comeria nem serviria produtos OGM aos seus amigos e familiares. Outubro de 2003: Resultados preliminares provam que duas das três plantas geneticamente modificadas prejudicam o meio ambiente. Erik von Farfan é jornalista. | ||