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22/03/2007

Qualidade do Rio Paraguai depende de seus afluentes

Desmatamento no planalto da Bacia do Alto Paraguai afeta a saúde ambiental do rio Paraguai. Foto: Alcides Faria

O rio Paraguai, maior leito do Pantanal e da Bacia do Alto Paraguai (BAP), ainda apresenta boa qualidade ambiental, mas a degradação de seus afluentes (tributários), além de suas próprias nascentes, deixará o Paraguai debilitado e perderá seu status de rio conservado.

Hoje os maiores impactos ambientais estão na área de planalto nos afluentes do Paraguai, onde estão localizadas as monoculturas de soja, milho, arroz e cana-de-açúcar e a pecuária extensiva, que, em geral, com base no mau uso do solo, promovem desmatamentos, erosões, uso indiscriminado de fertilizantes e pesticidas que alteram a qualidade das águas e afetam a saúde ambiental desses rios. Por outro lado, as instalações industriais como as da chamada agroindústria (frigoríficos e usinas de álcool), além de usinas siderúrgicas, como a de Aquidauana, contaminam os rios com matéria orgânica e efluentes tóxicos, como metais pesados e outros compostos. No rio Paraguai, propriamente dito, as atividades que causam problemas ambientais são a mineração de diamante, mau uso do solo na atividade agropecuária na região de suas nascentes, as dragagens e a navegação irregulares.

Arrozal irrigado com as águas do rio Miranda. Foto: Débora Calheiros

A constatação é da limnóloga Dra. Débora Fernandes Calheiros, pesquisadora da Embrapa Pantanal, que há cerca de 20 anos desenvolve pesquisas relacionadas à Ecologia de Rios e Áreas Inundáveis na região. Projetos coordenados pela pesquisadora analisam e monitoram todos os rios que formam o sistema do Pantanal, como o Projeto PELD/CNPq em toda a Bacia do Alto Paraguai e o FINEP/CT-HIDRO especificamente na bacia do rio Miranda.

“Todos os rios que chegam ao Paraguai apresentam níveis variados de metais pesados e pesticidas (herbicidas, inseticidas, fungicidas)”. A pesquisadora Débora explica que os rios estão contaminados, mas não de modo alarmante. Contudo, apesar dos herbicidas e inseticidas, atualmente utilizados, apresentarem maior facilidade de serem decompostos, mesmo assim ainda apresentam potencial de afetar a biota aquática. Porque muitas vezes são tóxicos para as plantas aquáticas, algas e peixes pequenos, por exemplo, causando desequilíbrio no sistema.

Bacia do rio Miranda. Foto: Débora Calheiros

Fora a bacia do rio Taquari, as bacias dos rios Miranda e São Lourenço são as mais afetadas, devido o mau uso do solo e a falta de utilização das chamadas “boas práticas agrícolas”. “Essas bacias podem vir a ser os futuros Taquaris. Apresentam muito desmatamento, uso incorreto de pesticidas e insumos”, alerta a pesquisadora. Segundo o Ministério do Meio Ambiente o rio Taquari foi considerado como mais caudaloso do mundo e hoje é o maior desastre ambiental do país.

No córrego Cachoeirão, no município de Sidrolândia, na bacia do rio Miranda, por exemplo, foi encontrada grande quantidade de metais pesados e pesticidas, que provavelmente veio da usina de álcool localizada na região. Já no rio Santo Antônio, também foram encontrados níveis relativamente elevados de nutrientes devido às atividades de frigoríficos.

Segundo Débora Calheiros, é possível minimizar esse quadro de alteração e contaminação da Bacia do Alto Paraguai, basta “respeitar a legislação e utilizar das boas práticas agrícolas, com o uso responsável dos recursos naturais, como solo e água, de acordo com as normas ambientais”. A conservação das matas ciliares e das nascentes, a implantação de curvas de nível; o uso de fertilizantes e pesticidas com conhecimentos técnicos, uso do plantio direto e  manejo de pastagens, a regularização de estradas de terra, e a interrupção dos desmatamentos são ações que ajudariam na conservação dos rios e do Pantanal.

O rio Paraguai tem um importante aliado, o Pantanal, que ajuda a manter a boa qualidade da sua água. “O próprio ecossistema faz sua “autodepuração” ou limpeza dos contaminantes e sedimentos que entram no sistema, e os processos ecológicos do rio ainda estão mantidos”, explica Calheiros. Mas a pesquisadora alerta: “À medida que o poluirmos cada vez mais, tais processos passarão a ser alterados, a capacidade de se autodepurar diminui e o rio começará a ficar debilitado, da mesma forma que ocorre com a saúde de uma pessoa ou da mesma forma que aconteceu com o rio Taquari, ou com o Tietê, em São Paulo”.  

Usinas Hidrelétricas nunca produziram energia limpa

Usina hidrelétrica no rio Correntes (MT) da bacia do São Lourenço. Foto: Débora Calheiros

Há outros impactos também expressivos que afetam a manutenção da dinâmica das águas na região, ou o chamado pulso de inundação e, portanto afetam o funcionamento ecológico de todo o Pantanal (ciclos de cheias e secas). Um grande problema apontado pela pesquisadora Débora Calheiros, são as usinas hidrelétricas nos afluentes do rio Paraguai. “As hidrelétricas já afetam a principal bacia do sistema, a do rio Cuiabá. Os principais rios dessa bacia possuem hidrelétricas ou estão em construção e a bacia do rio Cuiabá é responsável por 40% das águas do rio Paraguai”.

“O pulso de inundação rege o sistema do Pantanal e os impactos ecológicos-econômicos decorrentes de sua alteração são imprevisíveis. O pulso também é um dos fatores que mantém a produtividade pesqueira da região, na qual se baseiam duas das principais atividades econômicas do Pantanal, a pesca profissional e o turismo de pesca”, explica Débora Calheiros.

No relatório "Os dez rios mais ameaçados do mundo" da Rede WWF, são citados 27 novos projetos de barragens já planejados para BPA. Para se ter noção dos impactos de hidrelétricas nesta região, uma redução de 25 centímetros no nível do rio Paraguai, decorrente de represamento ou eclusas, poderia gerar uma queda de até 22% na área inundada do Pantanal. O fenômeno teria efeito devastador, não só na flora e fauna, mas na própria economia da região. 

Confira o documento: Efeitos cumulativos de barragens no Pantanal

Patrícia Zerlotti




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