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21/07/2008

Poluição nuclear na França?

Fonte: O Estado de São Paulo

O correspondente do Estadão na França, aponta como anda a busca por fontes de energia alternativas ao petróleo, destacando a contaminação do Golfo do México em decorrência do aumento acelerado de plantações de milho nos Estados Unidos para a produção de biocombustíveis.

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A França tem muitas centrais nucleares para uso civil e se orgulha delas. Seu parque ultrapassa o dos Estados Unidos. Portanto, é menos dependente do petróleo. Além disso, no campo nuclear, ela desfruta da segurança e de um "know-how" sem iguais.

O problema é que, na Central do Tricastin, no sul do país, 74 quilos se derramaram, no início de julho, no lençol freático. As autoridades garantem que não há o menor risco. Entretanto, houve casos como o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Na época, os políticos franceses disseram que a nuvem mortal parou na fronteira. Um milagre! Mas não passou de uma falsa notícia; Chernobyl fez vítimas também na França.

Pouco depois, a energia nuclear, amaldiçoada pelos ecologistas, recuperou o crédito. Vários países europeus que haviam desistido dela (como Alemanha e Inglaterra), decidiram voltar a utilizá-la por considerá-la uma solução viável, tendo em vista o futuro esgotamento das reservas de petróleo, conforme testemunham os preços enlouquecidos do barril.

As outras energias alternativas são igualmente objeto de severas críticas. E em primeiro lugar, a mais estimulante, os biocombustíveis.

Um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Europeu) acusa-os de todos os males, e, como se não bastasse, seus custos são altíssimos. Os subsídios pagos aos biocombustíveis na Europa e na América do Norte se aproximarão dos US$ 25 bilhões anuais até 2015.

Segundo o Banco Mundial, os biocombustíveis provocaram uma alta dos preços dos alimentos por causa da qual 100 milhões de seres humanos (por enquanto) caíram na pobreza extrema. A Europa pretende corrigir para menos os seus objetivos, e fala em reduzir a meta que se havia proposto de acrescentar 10% de biocombustíveis na gasolina até 2020.

Agora, pesquisadores americanos da NOAA (Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera) acusam os biocombustíveis de mais um pecado: estão matando o Golfo do México.

O processo, segundo eles, é o seguinte: o Rio Mississippi transporta um excesso de fósforo e de nitrogênio, o que acarreta a proliferação de algas. No verão (setentrional), no final da sua vida, estas algas descem até o fundo do oceano onde se decompõem. Sua decomposição absorve todo o oxigênio disponível, asfixiando os organismos vivos. No Golfo do México, formam-se então "zonas mortas".

O mecanismo atua há muito tempo, e suas variações estão sendo monitoradas desde 1990. Mas, este ano, ele atingiu uma intensidade sem precedentes. A "zona morta", que aparece a cada verão na foz do Mississippi, cobrirá 23.000 quilômetros quadrados em 2008. Por que motivo ocorre esta dramática expansão da "zona morta"? Por causa dos biocombustíveis, afirma a NOAA. Nos EUA, as superfícies destinadas ao cultivo do milho, cobrem este ano 35 milhões de hectares.

Eugène Turner avalia: "Indubitavelmente, o nitrogênio chega até o Golfo do México em volumes mais significativos pois a cultura do milho cresce cada vez mais por culpa dos biocombustíveis".

Será preciso recorrer às energias alternativas? À energia solar, à energia das marés, à das ondas, ao hidrogênio? Fiz esta pergunta a um dos pioneiros da ecologia na França (que foi discípulo do grande René Dumont). Ele me respondeu: "Por enquanto, as energias alternativas são marginais, não representam quase nada. Quanto à energia nuclear, veja o que aconteceu em Tricastin, em Chernobyl. O que resta? O petróleo. Mas o petróleo se esgotará. Muito melhor, então: talvez isto signifique a sobrevivência do universo diante da poluição, do aquecimento do clima.

Respondi ao ecologista que o achava um tanto pessimista. Ele me disse que não era, que, ao contrário, estava falando de uma chance.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris





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