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24/10/2005

O lado obscuro do agronegócio

por Maria Cecília Guimarães e Roberta Lessa*

Dias quentes no coração do Brasil. Setembro já chega ao fim. O céu não molha a terra e o fogo avança sobre a mata, com o sopro do vento que passa. Sobrevoando o Tocantins, é possível ver, à noite, colunas imensas de chamas a devorar, insaciáveis, o que ainda resta de verde-esperança. Porém, é preciso seguir viagem. Ver de perto o que o coração sente de longe. 

Começamos a cortar o mapa. Pelas estradas, muita devastação. A balsa, então, nos atravessa para o Pará. O Araguaia, azul de outros tempos, está envolto numa espessa cortina de fumaça. Já é possível sentir o clamor da vida ali sufocada. O sol arde a pele e as almas. Regina, professora naquelas terras longínquas, volta para sua casa desolada: "É, hoje tá muito embaçado, mas tem dia que tá pior. Parece que a fumaça se concentra no rio".

Do outro lado do rio, policiais fortemente armados, vigiam a fronteira do Estado. Mais tarde, sabemos que tamanho arsenal existe para tentar coibir o tráfico de madeira, tão intenso naquela região.

Seguindo adiante, conseguimos perceber o tamanho da destruição. São quilômetros e quilômetros e mais quilômetros de terra seca, pronta pra receber uma plantação qualquer. A fumaça das queimadas se mistura à poeira de estradas e de vidas esquecidas.

A soja devasta a floresta
Quase na divisa com o Mato Grosso, vemos no meio de uma extensa planície, um galpão imenso da empresa alimentícia Bunge. Descobrimos, então, que boa parte desse território devastado existe para produzir soja, e soja possivelmente transgênica, isto é, geneticamente modificada. Dizemos possivelmente transgênica porque, segundo o Greenpeace, a Bunge já afirmou, mais de uma vez, que pode estar utilizando soja transgênica na fabricação de seus óleos, margarinas e maioneses

A empresa não informa, nas embalagens, a utilização de transgênicos, como regulamenta um decreto de 2003, mesmo ano em que foi liberado, por medida provisória, o plantio de soja transgênica no Brasil. Descumpre o decreto e desrespeita o consumidor brasileiro já que, na Europa, ela garante soja livre de transgênicos. O pior é que a falta de transparência não pode ser remediada por testes nos produtos, pois o DNA do gene transgênico é destruído no processo de fabricação.
 
É possível ver no entorno das instalações da empresa, como a soja devasta o verde da região. O Greenpeace afirma que a "Bunge tem sido uma grande cúmplice do avanço da fronteira da soja no Brasil, colaborando na destruição de áreas de floresta amazônica e cerrado".

Em nome do progresso
O próprio governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, é o maior produtor de soja do mundo e o responsável por 48% do total desmatado em toda a Amazônia Legal, tendo dito em seu discurso de posse que nada iria deter o progresso do Estado através do agronegócio. A política forte de incentivo ao agronegócio em todo o país tem se tornado uma grande ameaça à sobrevivência de pequenos agricultores e de comunidades indígenas no interior do país, além de proporcionar a devastação de imensas porções de mata nativa, matando dezenas de espécies vegetais e animais. Vale lembrar também que o Mato Grosso é um dos estados em que não houve, em 2005, nenhum assentamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra).

Monocultura destrói nascentes e vidas
Chegamos a cidade de Confresa, Mato Grosso. Pegamos a estrada que leva à sede da Gameleira, uma usina de beneficiamento de cana-de-açúcar da região. Só a janela nos protege da fumaça e do mau-cheiro. É o resíduo da cana, conhecido como vinhoto, um líquido espesso e escuro que se mistura às águas, poluindo o canal onde alguns animais se alimentam e matam a sede. Imensos encanamentos puxam água de córregos da região para irrigar alguns hectares de plantação.

Mais à frente, uma nascente agoniza. É um braço do rio Gameleira, que está sendo assoreado pela estrada que o corta. O rio que dá nome à empresa é o mesmo que é sacrificado por sua ambição. E de sinais de ambição se reveste a estrada. São muitos os caminhos nessa região que levam a instalações de empresas e grandes latifúndios.

Desenvolvimento insustentável
É muita fumaça, com tanta seca neste sertão. Nem mesmo os trechos de matas que, por lei, deviam ser preservados escapam às queimadas. Mais triste é pensar que toda essa mata transformada em carvão é energia gerada para alimentar o mercado mais do que a bocas famintas. Sim, porque, já em 1996, Vicente Verdú, em El crimen capital, publicado no Diário El País, denunciava que apenas 2% da produção mundial de grãos bastariam para alimentar 1 bilhão de famintos condenados a morrerem de fome por não terem dinheiro no bolso.

*Jornalista e comunicadora social.





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