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11/04/2005

Inventar a verdade. Desinventar a mentira

Desculpem. Não é uma pergunta sem aparente razão: Quem de vós, enquanto realiza suas compras, atenta demoradamente para ler as informações presentes nos rótulos dos produtos alimentícios? Pouco provável ou diria difícil. No máximo lemos a marca e a serventia do produto. Ah! o prazo de validade. A máxima: poupar tempo. Conferimos os preços produto a produto tendo em mente o dinheiro que “enche” a carteira. Qualquer coisa, nós descartamos os menos essenciais. Coisa pouca, coisa que não fará falta no dia a dia: produtos de beleza, refrigerantes, sucos e sorvetes. A máxima: poupar dinheiro. Gastamos mais de 1/3 com alimentos, seja verduras, legumes, cereais, massas, óleo, margarinas, biscoitos, frutas, carnes, pescados. Curioso: comprávamos um tanto de mercadoria e saia por um valor; hoje, compramos bem menos mercadorias e pelo mesmo valor ou até mais. Várias dessas mercadorias embutem em seus preços custos abusivos, com os quais nem sonhamos.  Outras suavizam o preço final ao consumidor que agradecido compra caixas e mais caixas. Como as empresas conseguem que seus produtos cheguem mais baratos ao consumidor final sem que essa façanha traga prejuízos? Sem truques mágicos. Ou melhor: escondidos, nas mangas das camisas, incentivos fiscais e matérias-primas a baixo custo. Por  um caso não vivemos o boom da soja? Áreas ocupadas pela soja vezes sementes encheram as pranchetas dos agrônomos com picos de produtividade. Às vezes parecia ilógico; as leis do capitalismo: quanto maior a oferta menor o preço a ser pago. Contudo, a soja passou a ser imprescindível ao mercado interno brasileiro e externo; por mais soja que se produzisse havia demanda suficiente para alçar os preços em toda cadeia produtiva e deixa-los serenos ao consumidor final.  Todos felizes: os produtores, as empresas e os consumidores. Um verniz politicamente correto recobria toda essa felicidade; combater a fome dos famintos. Um negócio da China. A África pelo meio. Multidões de africanos e chineses rejubilados e fartos de tanta soja. Por quanto tempo?

Em qualquer negócio, em certa medida, arma-se uma arapuca. As iscas são os reais, os dólares e os euros. Nossas mãos tateiam o escuro da armadilha e, se não ficarem presas, saem com umas míseras moedas. O que deu errado? Aprendemos a negociar tudo o quanto é material neste planeta. A água daqui pra frente é mais um entre tantos itens na OMC.  Nem sempre o negociável está a olhos vistos e isso é o caso da agricultura. A arapuca é vender aos produtores que está se negociando grãos e aos consumidores que estão consumindo alimentos naturais sem nenhum tipo de herbicida. Conversa: o negócio é tecnologia de alimentos. Alteração do regime biológico da semente para ele produzir mais, codificação de suas informações e patenteamento  da descoberta para quem quer que a use ter que pagar royalties. Gato por lebre, na certa. O Altermir Tortelli, coordenador da Fetraf-Sul, cantou a bola já tem um certo tempo, em se tratando de transgênicos: “A Monsanto  que começou  cobrando  R$ 0,60,  em apenas um ano dobrou o valor, exigindo agora R$ 1,20 por saca de 60 kg. Isto vale também para os agricultores que tiveram a sua produção convencional ou orgânica contaminada. E ela não quer cobrar na venda da semente, por não ter como controlar. Ela quer cobrar no mercado, nos silos”. O Rio Grande do Sul, que vive uma das piores secas dos últimos sessenta anos, deve perder 60% da sua safra de soja, obrigando várias famílias a se mudarem dos seus estabelecimentos rurais. Como brincou a jornalista Amália Safatle, em Alternativas, coluna da Carta Capital, os agricultores sulistas que plantam transgênicos, e segundo o próprio Tortelli e outras pessoas o Rio Grande do Sul foi ocupado por eles, deveriam sugerir aos cientistas a invenção de espécies vegetais que prescindam de água. Para os agricultores, o problema da seca talvez não seja o mais premente de ser resolvido.

Com os baixos preços ofertados para a saca de soja, os transgênicos vêm sendo propalados como a salvação da lavoura para os agricultores super-endividados que produzem soja convencional;  quem defende os transgênicos apresenta a conta de 350 dólares por hectare que se gasta com herbicidas na soja convencional. Fazendo uma leitura realista, os transgênicos são o passo óbvio da indústria de tecnologia de alimentos que joga no armário séculos de seleção natural de sementes para pôr no seu lugar sementes geneticamente modificadas. Produzir um tipo de cereal por quantidades imensas de terra e esperar que isso resulte em toneladas e toneladas de grãos são negócios de milhões e milhões de dólares que necessitam de controle e este controle é a informação técnico-científica. O furor na análise dos 350 dólares de herbicidas vira irreal ao compreendermos que os lucros obtidos pelos agricultores são mirrados e as “vantagens” ao consumidor final são ofensivas, porque os lucros com royalties serão astronômicos e o consumidor se restringirá aos produtos com códigos de barra; o que leva o agricultor a se enredar nessa teia não é uma busca de dividendos – a Europa paga muito bem pela soja não-transgênica e orgânica - e sim a inserção no mercado. O sr. Eraí Maggi, segundo maior produtor individual do estado de Mato Grosso, esclareceu esse troço, muito bem, no Seminário Nacional sobre Biotecnologia e Transgênicos: “Os produtores não irão abrir mão desta poderosa ferramenta, pois os nossos concorrentes já a adotaram e se não fizermos o mesmo poderemos ser engolidos pelo mercado.”  A sua área de 150 mil hectares é dividida em 100 mil para soja, 30 mil para o milho e 20 mil para o arroz; em se tratando de Mato Grosso, uma expressividade produtiva de tão grande monta normalizasse em uma irreversibilidade assustadora: “Podemos afirmar que a transgenia é irreversível em todo o Brasil”.  Esta afirmação não chega a ser profética, se tendo notícias de que no Maranhão há indícios da presença de soja transgênica. O Sr. Roberval, do setor de defesa vegetal, inspeção e certificação de produtos para exportação da Delegacia Federa de Agricultura, afirmou que na Fazenda Nova Vida, município de Mata Roma, Baixo Parnaíba, esta sendo plantada soja transgênica e que a Embrapa experimenta transgênicos no cerrado sul-maranhense.

Voltamos a pergunta inicial. Quem se atrever a ler os rótulos de produtos alimentícios vai se admirar com o nível de informações alocadas naquele espaço visual. Pegue, por exemplo, o rótulo do óleo vegetal Soya, da Bunge. Bastante colorido, por sinal. Rico em cores. Rico em vitamina E. Sem colesterol. A panela repleta de legumes e verduras. Conselhos para a dona de casa conservar o óleo: mantê-lo em lugar seco. Valor calórico: 120kcal. Telefone e correio eletrônico do serviço de atendimento ao consumidor. Você é um consumidor bem-informado que se transforma em gourmet, cozinheiro e nutricionista. Qualquer dúvida?! A soja encontrada no Soya veio de onde? Transgênica? Convencional? As fornecedoras desta soja desmataram quanto e onde? Contaminam igarapés? E por fim, as fábricas respeitaram as etapas do licenciamento ambiental? Quantos empregos foram gerados? Incentivos fiscais? Fonte de energia? Lenha? E se ela acabar? Espero uma resposta sincera para essas perguntas.  

*Mayron Régis, jornalista Articulação Soja-Brasil/Cebrac





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