Ecoa - Rios Vivos

Você está em:
10/10/2003

Iguaçu, o parque transgênico

Desta vez, a invasão do parque nacional do Iguaçu pode ser chamada de tudo, menos de desobediência civil. Até os quatis da floresta sabiam desde meados do semestre passado que o PT local preparava a reabertura da Estrada do Colono, atalho de 17,6 quilômetros que rasga para caminhões de soja a última reserva de mata atlântica do oeste paranaense.

Logo, não é rebeldia. Rebelde, pode exemplo, é a senadora Heloisa Helena. E nunca cometeu esse tipo de crime. Desde o começo do ano, enquanto o partido discutia a expulsão da senadora, o deputado petista Irineu Colombo esteve pelo menos duas vezes no Ministério do Meio Ambiente em Brasília, para discutir o ataque a Iguaçu. Na semana passada, ele cantou de véspera a vitória, dizendo ao repórter Romero Sales que Lula torcia pela Estrada do Colono:

"Quem garante é o deputado federal Irineu Colombo (PT-PR), que esteve ontem em Foz do Iguaçu junto aos ministros Roberto Rodrigues Agricultura) e Emília Fernandes (Políticas para as Mulheres). Conforme o deputado, Lula estaria aguardando apenas um sinal verde da Justiça, para determinar a reabertura da polêmica estrada que corta o Parque Nacional do Iguaçu (PNI), ligando os municípios de Serranópolis do Iguaçu e Capanema".

A entrevista, publicada pela Gazeta de Foz do Iguaçu, circulou na sexta-feira. Naquele dia, 500 pessoas, escoltadas por Colombo, pelo deputado estadual Elton Welter, pelo prefeito Luiz Suzuke, de Medianeira, e Nilvo Perlin, entraram à noite com tratores no parque e derrubaram três quilômetros da mata que se rebrotava desde 2001, quando o governo federal, depois de três anos de sentenças judiciais, negociações inúteis e pressões até da ONU, mandou a Polícia Federal fechar a estrada.

Os quatro políticos que comandaram a operação pertencem ao PT. O prefeito Suzuke preside a Aipopec - ou seja, a Associação de Integração Comunitária Pró-Reabertura do Caminho do Colono, o lobi do vale-tudo. Diz ele: "Alertamos por diversas vezes as autoridades públicas. Percebe-se a existência de uma revolta na população do Oeste e Sudoeste do Paraná, motivada pelo sentimento de injustiça que paira em relação à questão. Esse sentimento poderá levar a população a medidas extremas no sentido de reconquistar seu direito histórico de transitar pelo Caminho do Colono".

O que eles fizeram entre a noite de sexta-feira e a tarde de sábado não é trabalho de amador. Tomaram a força um posto do Ibama e puseram os fiscais para correr. Derrubaram a guarita com retroescavadeira. Barraram 24 policiais de Foz de Iguaçu no peito. Arrasaram as mudas de árvore plantadas desde 2001 para recompor a floresta. Quebraram a câmera da equipe de reportagem da TV Cataratas. Armaram barracas no território ocupado. E ainda tiveram organização de sobra para promover um almoço de comemoração.

No domingo, Colombo prometia inaugurar logo o serviço de balsa, para a travessia de carros e caminhões pelo rio Iguaçu. A nova balsa foi roubada da concessionária que explora o turismo no parque. Mas isso, numa operação do gênero, é apenas um detalhe. As invasões de Iguaçu costumam ser violentas e fulminantes. Demoradas são as providências da União para reaver o que é de todos os brasileiros, e não de meia dúzia de municípios.

A última batalha pela reintegração de posse foi adiada pelo Ministério do Meio Ambiente por três anos. Acabou marcada para um feriado de Corpus Christi. Empregou 200 agentes da Polícia Federal, soldados da Polícia Militar, tropas do Exército e bananas de dinamite. E, na época, à frente do motim não havia uma legenda francamente governista.

Com o fato consumado, a ministra Marina Silva desmentiu Irineu Colombo. A ela, pelo menos, o presidente da República não disse que quer a estrada de volta. E João Paulo Capobianco, secretário de Biodiversidade e Floresta do Ministério do Meio Ambiente, classificou a invasão como "um ato de vandalismo surpreendente". Que se trata vandalismo, não há dúvida. Mas surpreendente desde quando? Para quem?

Se os quatro petistas blefaram, alguma carta nas mãos eles parecem ter. Por mais ocupadas que andassem as autoridades em Brasília, definindo uma política ambiental que em poucos meses já liberou a soja transgênica, a importação de pneus usados e o comércio de mogno, cassou o decreto que ampliava o parque nacional da Chapada dos Veadeiros e não se cansa de nomear aliados para chefiar as unidades de conservação, alguém no governo Lula deveria saber que Iguaçu estava a perigo.

Marcos Sá Corrêa





Estas instituições apóiam projetos da ECOA e Coalizão Rios Vivos e não necessariamente as informações veiculadas no portal.
Conservacao Internacional InnBativel IUCN Mott Foundation
2004 © ECOA. Todos os direitos reservados
ECOA- ECOLOGIA E AÇÃO (67) 3324-3230