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06/10/2003

II Expedição rio Paraguai Suas Águas, Sua gente

Entre os dias 17 e 25 de agosto de 2003 a Rede Pantanal e a Coalizão Rios Vivos realizaram a expedição "Rio Paraguai: suas águas e sua gente", entre Cáceres no Mato Grosso (MT) e Corumbá (MS). Foram percorridos cerca de 680 quilômetros pelo rio Paraguai durante 9  dias nos "pantanais" de Cáceres, Poconé e Paraguai (ver mapa à esquerda) com o objetivo de promover alguns  levantamentos e ao mesmo tempo fazer discussões sobre mecanismos de proteção e desenvolvimento sustentável para o "Sistema Paraguai / Paraná de Áreas Úmidas", sistema do qual o Pantanal é parte.

A iniciativa contou com o apoio do Ministério do Meio Ambiente, através do Programa Pantanal, do Comitê Holandês da União Internacional para a Conservação da Natureza (NC-IUCN) e do World Wildlife Fund (WWF), Participaram pesquisadores, representantes de organizações não-governamentais, governamentais (Embrapa Pantanal, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Universidade Estadual de Mato Grosso e Programa Pantanal) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, totalizando 35 pessoas. A Rede Globo, através de suas afiliadas de Cuiabá e Campo Grande, registrou toda a expedição (foto) à direita.

 No Parque Nacional do Pantanal foi realizado um workshop coordenado pelo chefe do Parque, José Augusto (foto), sobre áreas protegidas o qual contou com a presença de representantes da Bolívia responsáveis pelos parques de Otuquis e San Mathias, ambos na fronteira com Brasil. Foram identificadas possíveis linhas de ação comum a serem negociadas entre os governos com a participação da sociedade civil.

As impressionantes paisagens  - com as flores do loro preto, da piúva, do cambará, do abobreiro como pano de fundo - a diversidade da fauna, os ninhais, a sinuosidade do rio Paraguai em alguns trechos, a imensidão da lagoa Uberaba, a imponência da serra do Amolar elevando-se a mais de 1000 metros e a hospitalidade dos ribeirinhos marcou profundamente a todos. Na reserva ecológica Tayamã e o Parque Nacional do Pantanal a vida explode com exuberância. Jacarés, capivaras, cervos, ariranhas e incontáveis pássaros assistiam calmamente a passagem do barco em meio à predominância do "abobreiro" (foto acima) em plena época de floração. Até mesmo duas onças apareceram na margem, sendo que uma delas deixou-se filmar (ou analisava outras possibilidades) por cerca de cinco minutos a 3 metros de distância.

Desde o início a  presença de uma história ainda não conhecida: o que ocorreu com os inúmeros povos indígenas do Pantanal registrados em relatos de viajantes desde a época da chegada dos europeus, há quase 500 anos? Os registros destes povos estão por toda parte em incontáveis sítios arqueológicos, alguns deles desvendados por Gilson Rodolfo Martins, arqueólogo participante da expedição. Um destes povos, os guatós, ainda podem ser encontrados em pequeno número espalhados pela periferia de algumas cidades da bacia, na ilha Insua e no rio São Lourenço.
Dentre estes uma pequena família formada por 3 idosos: Dona , seu filho Vicente e seu irmão Veridiano (foto à esquerda) , talvez seja o ultimo grupo que ainda usa a língua guató e não o português  para comunicar-se em seu cotidiano. Eles, para sobreviver, dependem fundamentalmente de sua relação com os ecossistemas do seu entorno mais próximo como certamente faziam seus ancestrais. Vivem próximos ao Parque Nacional. As marcas destas antigas populações também podem ser encontradas nos traços físicos dos ribeirinhos ao longo rio Paraguai.


Sistema Paraná Paraguai. As discussões permitiram avanços nas formulações e estratégias sobre o sistema na perspectiva de que os governos da Bolívia, Paraguai, Argentina, Brasil  e organizações da sociedade civil destes países construam um programa comum para a integração econômica, social cultural e ambiental nos marcos do desenvolvimento sustentável. Foi constituído um grupo para trabalhar nesta perspectiva formado pela Coalizão Rios Vivos, WWF, Programa Pantanal / Ministério do Meio Ambiente; Rede Pantanal; Fundacion Proteger; Foro Ecologista (Argentina), Sobrevivência (Paraguai) e Both Ends (Holanda).

Navegação
A ação das barcaças que trafegam em comboios pelo rio Paraguai, particularmente na  Reserva Ecológica Tayamã  e em parte do Parque Nacional do Pantanal, tem sistematicamente destruído curvas, barrancos, diques marginais e a vegetação aquática e terrestre marginal. Este é um processo que tem se agravado ano a ano sem que providências sejam tomadas. Esta situação levou os participantes da expedição a enviarem uma carta e fotos ao presidente da República denunciando a situação e solicitando a solução. Receberam cópias da carta e das fotos a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva e o Procurador da República no estado de Mato Grosso Dr. Pedro Taques.

Morte e fiscalização
Há caça de jacarés. Ao que parece a caça acontece para aproveitamento da carne pois os animais mortos estavam com o couro e sem a parte da cauda que é comestível. Nenhuma patrulha de fiscalização foi encontrada nos 10 dias de navegação.


Pescadores e as áreas protegidas
Afora o fato de que no Parque Nacional e na Reserva Ecológica foram os locais onde mais se observou a presença da fauna também o grande número de pescadores nas proximidades destas áreas é também uma evidência forte da importância destas como berçários da vida silvestre. Isto reforça a necessidade de ampliar o número de áreas protegidas no Pantanal. Hoje menos de 1% na Bacia do Alto Paraguai (BAP) tem o status de "área protegida".

Alcides Faria é presidente da Ecoa e secretário executivo da Coalizão Rios Vivos





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