A comunidade de Antônio Maria Coelho, localizada há 45 quilômetros de Corumbá/MS na Serra de Santa Maria, está sofrendo com a total falta de água há cerca de uma semana. A escassez é conseqüência do uso inadequado do recurso pelas empresas mineradoras e siderúrgicas instaladas na região.
As famílias sempre utilizaram a água do córrego Igrejinha, que passava próximo de suas casas, mas o córrego secou há dois anos e até hoje não foram encontradas soluções definitivas para esse problema.
Como medida paliativa ficou acordado que a empresa Vale forneceria água para a comunidade através de caminhões-pipa. A medida, que era para ser temporária, tornou-se a única alternativa de abastecimento da comunidade, porém nesta última semana o problema agravou-se, pois os caminhões responsáveis pelo abastecimento não forneceram a água como de costume.
Segundo a presidente da Associação de Moradores de Maria Coelho, Luzinete Ortiz Correia, essa não é a primeira vez que isso acontece, e que a Vale não vem fornecendo com regularidade água potável para a comunidade.
“É uma situação constrangedora, todos sofrem, nossas pequenas plantações, os animais, e os próprios moradores, pois não temos onde pegar água. O caminhão muitas vezes aparece lá uma vez por semana. Isso é muito pouco, o ideal seria pelo menos três vezes por semana. Somos aproximadamente 40 famílias para um caminhão pipa. Precisamos urgentemente de uma solução para este problema”, ressalta Luzinete.
Para saber a versão da empresa entramos em contato com Marconi Vianna, representante da Vale na “Plataforma de Diálogos”. Ele nos afirmou desconhecer o problema e disse que a empresa não possui nenhuma informação sobre qualquer irregularidade no abastecimento de água na comunidade.
“Só após sermos comunicados oficialmente sobre a questão é que poderemos tomar decisões práticas sobre o problema.” Afirma Vianna.
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Vale do Rio Doce enfrenta no Canadá problemas parecidos com os do Brasil. eja a matéria publicada na Folha de S. Paulo no dia 03 de julho de 2010.
"Basicamente eles não têm os mesmos valores que nós quanto ao respeito à comunidade. Se livraram dos fornecedores locais, o que tira empregos da região. Sempre tivemos uma comunidade vibrante e temos agora essa multinacional tentando destruir nosso modo de vida." Ken Neumann, presidente para o Canadá do sindicato internacional Metalúrgicos Unidos.
Greve em mina da Vale completa 1 ano
Folha de S. Paulo no dia 03/05/10
À medida que a greve dos funcionários das minas de níquel da Vale em Sudbury (Canadá) se aproxima do recorde de um ano de paralisação, a ser completado no próximo dia 13, a tensão e o ódio à mineradora brasileira crescem a níveis perigosos.
Tudo indica que um acordo está próximo, mas não apagará os problemas dos últimos meses, quando a cidade de 150 mil habitantes, a 380 km de Toronto, viu episódios de violência e processos judiciais mútuos que transformaram a empresa em símbolo local de "ganância corporativa".
Essa já é a mais dura greve da história de Sudbury, que explora níquel desde o fim do século 19 e está acostumada a ver disputas trabalhistas movidas pelo braço local do forte sindicato internacional Metalúrgicos Unidos (USW).
Na última semana, a frustração pelo rompimento da enésima rodada de negociações levou os grevistas a descontar na imprensa e até na própria liderança, ambas ameaçadas aos berros em reunião na quarta passada.
Apenas em um ponto todos concordam: ninguém aguenta mais ficar parado.
"Não temos mais esperança. A sensação é que perdemos o controle de nossas vidas", disse à Folha Craig Thompson, 38, mineiro que fazia piquete em frente à Mina Sul da Vale em Sudbury na última quarta.
PROMESSA
A Vale adquiriu a mineradora Inco em Sudbury no fim de 2006 -segundo o sindicato, prometendo não fazer grandes mudanças.
A greve começou em julho de 2009, quando 3.000 funcionários protestaram contra propostas de renegociação de contratos coletivos.
Estavam em jogo alterações nos planos de aposentadoria e em um bônus atrelado ao preço do níquel. A Vale diz ter de fazer mudanças para manter a sustentabilidade da subsidiária, após o fim de superciclo do níquel que levou o preço a recordes em 2008.
Mas o sindicato não se convence: insiste em que a empresa lucrou mais de US$ 13 bilhões, US$
4,1 bilhões só na Província de Ontário, nos dois primeiros anos após a compra das minas locais.
Sindicato e empresa dizem já ter negociado os pontos financeiros de discórdia.
O fim da greve está pendente apenas da decisão sobre como processar nove funcionários demitidos por infrações na paralisação. A Vale diz que está elaborando estratégias para diminuir a animosidade na volta, mas algumas polêmicas ainda deverão repercutir.
Uma delas é devido aos chamados "fura-greve", temporários contratados neste ano para retomar operações.
Alguns supostamente apanharam na rua de membros do sindicato, que divulga os nomes dos temporários em cartazes ilustrados com ratos para encorajar retaliações
Veja a entrevista de Ken Neumann, presidente para o Canadá do sindicato internacional Metalúrgicos Unidos, à Folha de S. Paulo.
Sindicato diz que Vale "pisa nos valores locais" do Canadá
Folha de S. Paulo 03/07/10
ANDREA MURTA - NVIADA ESPECIAL A SUDBURY (CANADÁ)
À medida que a greve dos funcionários das minas de níquel da Vale em Sudbury (Canadá) se
aproxima do recorde de um ano de paralisação, a ser completado no próximo dia 13, a tensão e o ódio à mineradora brasileira crescem a níveis perigosos.
Tudo indica que um acordo está próximo, mas não apagará os problemas dos últimos meses, quando a cidade de 150 mil habitantes, a cerca de 380 km de Toronto, viu episódios de violência e processos judiciais mútuos que transformaram a empresa em símbolo local de "ganância corporativa".
Essa já é a mais dura greve da história de Sudbury, que explora níquel desde o fim do século 19 e
está acostumada a ver disputas trabalhistas movidas pelo braço local do forte sindicato internacional Metalúrgicos Unidos (USW).
Para Ken Neumann, presidente para o Canadá do sindicato internacional Metalúrgicos Unidos, a Vale está "pisando nos valores locais" de Sudbury, onde enfrenta quase um ano de paralisação de suas operações.
FOLHA - Quando a Vale comprou a Inco (2006), como ficaram as relações com os funcionários?
KEN NEUMANN - Inicialmente conversaram com o sindicato e disseram que nada mudaria. Mas pouco depois começamos a ver que se livraram da maior parte dos antigos executivos e trouxeram seus gerentes, com culturas diferentes da canadense.
Ainda assim a relação foi cordial até que começamos a nos preparar para a barganha coletiva, pouco antes da renegociação do contrato. Aí eles ficaram bastante agressivos contra o status quo.
Basicamente eles não têm os mesmos valores que nós quanto ao respeito à comunidade. Se livraram dos fornecedores locais, o que tira empregos da região. Sempre tivemos uma comunidade
vibrante e temos agora essa multinacional tentando destruir nosso modo de vida.
É impressionante ver essa greve fazer aniversário quando a empresa lucrou mais de US$ 13 bilhões, US$ 4,1 bilhões apenas da divisão de Ontário nos dois primeiros anos de operação. É mais do que a Inco lucrou em uma década.
FOLHA - Mas a recessão chegou pouco depois...
NEUMANN - Negociamos o bônus do níquel para esses momentos. Quando o preço do níquel está baixo não recebemos bônus algum, e quando ele sobe temos o prêmio associado a ele. Aceitamos um salário base mais baixo por causa disso. E agora eles querem mudar o bônus significativamente. Querem aumentar os lucros para seus acionistas, que nem estão no Canadá. A sede da empresa não fica aqui e é claro que eles não têm o mesmo tipo de lealdade aos canadenses.
A conversa seria diferente se o níquel estivesse a US$ 2 por libra. Mas eles continuam tendo lucros.
FOLHA - Como o sr. vê a atitude da Vale?
NEUMANN - É uma questão do capital global. Essas empresas se tornaram tão gigantescas que são um monstro enorme quanto a seus planos de negócios. Estão adotando uma atitude muito rígida quanto a negociações coletivas e criando um ambiente muito pouco saudável para relações industriais. Acho querem enviar uma mensagem para outras operações que têm ou pretendem adquirir ao redor do mundo. Querem dizer, 'veja, ditamos as regras em Sudbury e é isso que
vamos fazer por aqui'.
Temos o total apoio da CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Brasil, pois o sindicato sabe que, se a Vale vencer aqui, isso repercutirá em casa.
Também culpo o governo canadense pela situação. Entregaram nossos recursos a empresas estrangeiras. Qual o benefício disso para o Canadá? Não venham para cá tentar voltar no tempo e destruir o que construímos até hoje.
FOLHA - O sr. achou que a greve chegaria tão longe?
NEUMANN - Eu não estava na mesa de negociação, mas ninguém previu um ano de greve. A Vale vai carregar essa imagem no mundo, de uma corporação que chega e pisa nos valores locais. Fizemos uma campanha global, fomos a vários países advertir os trabalhadores sobre o tipo de empresa que pretende fazer negócios com eles.
Muita gente deixou a cidade e foi buscar trabalho em outros lugares. A Vale fez muita coisa divisiva, levou muita gente aos tribunais. Pessoas que cruzaram terreno da empresa na volta de
protestos foram filmadas e processadas por invasões. A cidade sofreu muito nos últimos 12 meses.
A Vale também não pensou que a luta seria tão longa. Estão perdendo milhões de dólares. Agora querem punir o sindicato e dar um exemplo.
FOLHA - O que é que está ameaçado em Sudbury?
NEUMANN - Temos salários decentes, podemos criar nossos filhos e mandá-los à faculdade. Temos aposentadorias decentes. Temos várias gerações de famílias nas minas. É o estilo de vida no Canadá. Pode ser diferente no Brasil e em outras partes do mundo, mas deveríamos elevar o padrão em outros lugares e não baixá-lo aqui.
FOLHA - Há preconceito pelo fato de a empresa ser brasileira?
NEUMANN - Essa acusação veio da Vale, que quer minar os elos que temos com outros sindicatos pelo mundo.
FOLHA - Como será a volta ao trabalho após tanta animosidade?
NEUMANN - A Vale que construir um modelo de lucratividade e produtividade para o qual precisa dos funcionários. Temos alguns dos indivíduos mais bem treinados do mercado. Precisam de nós, e precisamos dos empregos.
Mas se a empresa continuar a agir como está agindo, vamos seguir atuando com outros grupos de trabalhadores da Vale ao redor do mundo para que entendam que podem ser uma multinacional, mas nós temos o direito de ser tratados com dignidade e respeito.