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14/12/2005

Atingidos pela usina de Irapé

À

Exma. Sra.  Procuradora Zani Cajueiro
c/c p/ FEAM

É lamentável o atentado direto contra os Direitos Humanos praticados contra as famílias de atingidos pela Usina de Irapé, que, sendo empreendido por uma empresa estatal, se caracteriza muito próximo a um Terrorismo de Estado.

A comunidade Cachoeira I encontra-se a quinze dias sem abastecimento d’água, crianças sem estudar devido a falta de acesso à escola, e a comunidade está isolada, sem meios de comunicação.

O quadro geral é de desolação. Um número enorme de criações animais mortas afogadas, num cenário surreal onde bois e vacas aos montes passam boiando nas águas. Lembremos que o gado é a garantia financeira da população rural, conhecido como “banco do sertanejo”. Muitos foram deixados nas antigas comunidades, à beira do rio, devido a falta de transporte, além da falta de pasto preparado na comunidade de destino, no que consta o descompromisso da CEMIG.

Madeiras de Lei perdidas nas águas; fora acertado com a CEMIG que as pessoas ficariam com a madeira de Aroeira, dentre outras, que foram derrubadas em suas comunidades. A CEMIG faltou com o compromisso firmado junto às pessoas de levarem as madeiras para as moradias definitivas, após as pessoas terem-nas ajuntados e deixados no local combinado para serem transportadas.

Com o golpe proferido pela empresa, de fechar as comportas preventivamente à determinação judicial, mostrando que para ela o COPAM não passa de um “boneco de papel”, pois não se esperou segundo a determinação da audiência da Câmara pela análise técnica da FEAM para balizar a Caução Fiduciária, as madeiras, os animais e muitos outros bens e patrimônios das famílias foram, literalmente, por “água a baixo”.

A título de exemplo, tem-se a Sra. Geni, que perdera 400 peças de Aroeira, a Sra. Conceição, perdera 300 peças, Sr. Justino, 150, Sra. Deli, 100, etc. A Sra. Geni a qual nos referimos também perdera prensa de Mandioca, conjuntos de telhas, arames, postes,etc. Registra-se também o caso de um conjunto moto-bomba de 13 CV, da Comunidade Zé de Barro, que fora levado pelas águas, no local de origem. Em Francisco Dumont, local de destino, um outro conjunto moto-bomba fora também levado pelas águas. 
 
A população remanescente está em estado de cerco e apreensão devido à superpopulação de cobras, escorpiões e outros animais peçonhentos que rondam seus quintais e adentram pelas casas. Temem, sobretudo pelas crianças; estão sendo avisadas pelas equipes de coleta (que, diga-se de passagem, encontra-se aterrorizada, sem condições de trabalho, pois não dão conta da densidade de animais peçonhentos) para “terem cuidado, pois não há soro em local próximo que possa chegar a tempo para o atendimento”.
                       
Em muitos reassentamentos, as pessoas estão fazendo a destoca da área de cultivo literalmente no braço e na enxada. Os animais encontram-se sem pasto. E a correção de solo provavelmente não terá efeito, ou terá um efeito drasticamente reduzido. Na fazenda Palmital, dentre outras, o calcário fora aplicado somente a uma semana atrás. As sementes que foram disponibilizadas para as comunidades chegaram perdidas, por ataques de fungos, sacos rasgados, etc.

Assim, as pessoas amargarão a perda de mais um ano de safra...

Na comunidade Peixe Cru, que costuma ser usada no teatro viciado da CEMIG como “cartão-postal”, a situação é terrível. As pessoas ficaram privadas de água potável para consumo. Chegaram, no desespero, a cogitar utilizar água de piscina, e só não o fizeram devido ao tratamento químico desta.
                       
Campo Vale
COMISSÃO DOS ATINGIDOS PELA BARRAGEM DE IRAPÉ





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