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02/05/2005
Articulação Soja envia carta à BungeBrasília, 28 de abril de 2005 Ilmo. Sr. Prezado Senhor Wasser, Apresentamos nossos veementes protestos contra as atitudes que os dirigentes de sua companhia no Brasil vêm tomando, e que tem como objetivo calar uma voz – que não é mais solitária – que vinha protestando contra a destruição dos Cerrados brasileiros no Piauí. Há pouco mais de um mês sua companhia entrou na Justiça contra a organização não governamental FUNAGUAS, e seu presidente, Judson Barros, e através dos advogados de sua companhia foi proposto um acordo, na sessão inicial de conciliação, que acabou sendo aceito pelo presidente da FUNAGUAS. Agora, pelas mesmas razões anteriores, nova ação está sendo proposta contra a organização e pessoas acima citadas, ou seja, demonstrando claramente que o “acordo” proposto por sua companhia não era sério e, ainda mais, que seus propósitos intimidatórios não têm limites éticos ou morais. Acreditamos que sua companhia vem investindo pesado em sua imagem corporativa, pelo que temos visto de propaganda institucional nas emissoras brasileiras de televisão, nos jornais e revistas. E que se suas intenções são de boa fé não será intimidando criticas que a desejada “imagem” será fixada pelo público pois, por mais gastos em publicidade que sejam feitos, a verdade acabará por surgir, talvez não imediatamente, mas certamente a ponto de desmascarar inverdades no tempo histórico de uma companhia que acaba de fazer 100 anos e pretende perpetuar-se ao máximo. Gostaríamos de lembrar, a propósito, que os processos sociais e de consumidores não se comportam dentro das leis da física (“a cada ação há uma reação igual e em sentido contrário”), mas sim de maneira imprevisível para todas partes envolvidas, até mesmo para detentores de grande poder econômico, como é o caso de sua corporação. Observamos, também, que responsabilidade social empresarial não se faz com filantropia mas, sim, dentro da cadeia de operações da própria companhia, sensibilizando e controlando seus fornecedores para ações que reduzam seus impactos negativos no meio ambiente e na sociedade em que atua. É risível, frente à atuação efetiva de sua cadeia de fornecedores, e porque não dizer, das próprias escolhas da Bunge no que diz respeito à matrizes energéticas adotadas, em especial no Piauí, afirmar – como consta no item Corporate Citizenship do kit “Bunge: Media Information” – que a companhia está protegendo o “Brazil’s ecologically rich Cerrado region. We have partnered with Conservation International to help farmers ….”. Conhecemos esse projeto e suas limitações: seus impactos positivos, quando houverem, tenderão a ocorrer após a destruição quase total do referido bioma, eleito pela própria Conservation International como um dos 25 “hot-spots” mais ameaçados da biodiversidade do Planeta. Acompanhamos desde a segunda metade do século passado a trajetória de sua empresa, que nasceu na Argentina, mudou-se para o Brasil e agora tem sede em nos Estados Unidos da América. Se algum traço ficou da tradição de seus fundadores, as famílias Bunge and Born, do diálogo e respeito às pessoas, e à natureza, a sua atuação recente não tem feito jus a ela. Se o crescimento e acumulação de capital ocorridos com a operação no mercado brasileiro criaram algum compromisso com nosso povo e nosso país, isso ainda está por ser demonstrado. Assim, gostaríamos de sua intercessão no sentido de que sejam retiradas as ações judiciais intimidatórias anteriormente referidas, e que a empresa reconheça o direito democrático dos atingidos direta e indiretamente (através da cadeia de fornecedores) por seus empreendimentos, e de ONGs que defendem a população e o meio ambiente locais, têm em contestar sua atuação. Que seja iniciado um diálogo construtivo com as organizações da sociedade civil brasileira, em especial as socioambientais, e suas articulações, redes e fóruns representativos. Só assim sua companhia estará retomando um caminho que sua publicidade sugere e que não tem correspondido à realidade que observamos aqui no Brasil. Atenciosamente, Maurício Galinkin -Articulação Soja –Brasil, Fundação CEBRAC e Conselheiro do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) Articulação Soja -Brasil
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