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08/08/2005

A cultura da soja

Fonte: Articulação Soja

À medida que a cultura da soja ganhava mais e mais projeção na economia brasileira, ajudando a cumprir as metas de superávit primário do Estado, crescia um sentimento de revolta em parte da sociedade brasileira para com os desmandos sociais e ambientais relacionados com a alta concentração de poder e influência exercidos pelo agronegócio e com irracionalismos técnico-científico e tecnológico. Para elogiar ou para criticar, a cultura da soja virou uma espécie de fetiche para a parte da sociedade brasileira que a discute. De uma hora para outra, ela virou responsável por quase tudo no Brasil, desde a nomeação do ministro da agricultura até o desmatamento na Amazônia, desbancando neste último caso a indústria madeireira.

Balsas, cidade do Cerrado sul-maranhense, é um dos principais bastiões do modelo da soja no Brasil, servindo de propaganda deste modelo; a cultura da soja aos poucos botou para escanteio a cultura do arroz que levou o estado do Maranhão aos primeiros lugares do estado do Rio Grande do Sul, isso nos anos 80. Em julho de 2001, com a cultura a soja plenamente incorporada ao modo de vida dos moradores de Balsas, a Rede Cerrado realizou seu encontro nacional. Um dos palestrantes, pesquisador da Universidade Federal do Tocantins, aconselhou a todos os presentes que não olhassem a soja como um fetiche que, independendo da ocasião, daria sentido para qualquer discurso ou para qualquer agir sobre a questão ambiental e agrária nos Cerrados maranhenses e tocantinenses. Ele, na verdade, desejava passar à platéia um rigor técnico e imparcialidade, dignos de nota, contudo, para uma platéia formada por militantes dos movimentos sociais e ambientalistas, deixava um pouco a desejar essa postura. Afirmou, com todas as letras, que a hidrovia Araguaia-Tocantins era inevitável, o que se mostrou incorreto até hoje.

Toda a sociedade brasileira embarcou na onda e viu na soja seu objeto de desejo, de consumo, de inovação tecnológica, de produção, de empregabilidade e, por fim, de críticas a um modelo nunca superado de produção e exportação de matérias-primas para países capitalizados. O desenvolvimento histórico da soja em solos brasileiros não trouxe nada de novo, comparando com outras culturas de exportação. A diferença está na incorporação de avanços tecnológicos ao processo de produção da soja e à estrutura associada a este processo. Incorporando esses avanços tecnológicos para que a sociedade rural viesse a ser capitalista e homogênea, destravancando eixos de desenvolvimento secularmente letárgicos e conformistas. Construir a BR-163 ou discutir a sua construção, afinal não deu a largada da construção, parte desse princípio, de que a estrutura social e econômica no Mato Grosso está tão concentrada no e tão imbuída das metas do setor agro-exportador que seria injusto que não se asfaltasse essa rodovia e que não se distribuísse para o restante do Mato Grosso e para outras regiões os recursos que o agronegócio acumulou. A crítica ao asfaltamento da BR-163 seria que o desencadeamento de um processo apropriador de recursos naturais e degradação destes recursos pelas levas de pessoas que se deslocariam para a região de influência da rodovia.

Numa região em que o Estado de Direito pratica seriamente a não-utopia, pela pouca repercussão das ações do Estado nas áreas de saúde, educação, meio ambiente e segurança, a possibilidade de asfaltamento da BR-163, que liga Cuiabá a Santarém, no trecho paraense pertence ao razoável estágio inicial de esperança. Fazendo valer a sua força de ente máximo de uma república e para que não seja acusado de iniciar uma obra sem escutar seus cidadãos, o Estado vinha promovendo uma série de audiências nos municípios da área de influência direta da rodovia. O que se ouviu não dá conta de anos e anos de vidas abandonadas em plena floresta amazônica. O asfalto é importante, mas ações em saúde valorizam mais o ser humano, retificando-o.

Havia uma urgência em iniciar o asfaltamento, anunciavam para o final de 2005, uma urgência que o Estado desfraldava a cada audiência, como se o acolhimento, pelos representantes do governo, das propostas da sociedade civil adiantassem o processo de licenciamento em horas, dias e meses. Só esqueceram de preciosos detalhes. Sobre o consórcio que iria asfaltar a rodovia se sobressaiam os interesses dos sojicultores; com o preço da soja em terrenos tão baixos e os sojicultores tão endividados, mais uma vez o asfaltamento da rodovia ficou no ora veja.

Mayron Régis é jornalista - Articulação Soja-Brasil/Cebrac





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