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09/09/2010
A ameaça agora é NUCLEARCorreio do Estado, 07 de setembro de 2010
O problema: geração de energia. A solução: uma incógnita. Enquanto economistas, ambientalistas e pesquisadores de diversas áreas discutem qual a melhor maneira de garantir a segurança energética do Brasil, o poder público toma decisões com o mesmo objetivo. A última delas foi o início de estudos em nove Estados, entre eles Mato Grosso do Sul, para a ampliação do parque gerador de energia nuclear. O comunicado com esta informação, divulgado no dia 11 de agosto pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), trouxe à tona a discussão sobre os perigos relacionados a esse tipo de geração de energia e deve ser encarado como um convite à reflexão: até que ponto a sociedade está disposta a assumir os riscos de ter uma usina nuclear funcionando no quintal de casa?
Energia nuclear no Brasil Duas usinas nucleares funcionam no Brasil, no município de Angra dos Reis (RJ): Angra 1, operando desde janeiro de 1985, e Angra 2, operando desde fevereiro de 2001. Depois de muita polêmica, foi retomada no início do ano passado a construção da terceira usina da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), Angra 3, que será praticamente uma réplica de Angra 2. Juntas, as duas usinas em operação custaram aos cofres públicos pelo menos R$ 11 bilhões, só com as despesas de instalação e compra de equipamentos, e geram uma energia correspondente a aproximadamente 3% da energia elétrica consumida no Brasil. O Plano Nacional de Energia (PNE 2030), estudo de longo prazo do Governo Federal para a área energética elaborado pela EPE, identificou a necessidade de expansão do parque de geração nuclear brasileiro nas próximas décadas. Além de Angra 3, o documento recomenda a construção de mais quatro usinas até 2030, com potência instalada de 1.000 MW cada. Daí a necessidade dos estudos iniciados nos nove estados, para a seleção de locais para a instalação dessas usinas. Os perigos Apesar de ser considerada uma forma de geração de energia ambientalmente limpa, com pouca emissão de gases geradores de efeito estufa, a produção de material radioativo decorrente da reação atômica e o perigo iminente de vazamentos ou explosões precisam ser levados em consideração. Todo empreendimento potencialmente poluidor só passa a operar depois de obter licenças ambientais, no caso das usinas essas licenças são emitidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o que ajuda a garantir uma certa segurança com estudos e relatórios periódicos. Mas a população precisa estar atenta, antes mesmo de chegar a etapa do licenciamento, para avaliar se os benefícios econômicos devem prevalecer sobre os riscos assumidos permanentemente com a implantação de uma usina nuclear tão perto de suas casas. Outro ponto fundamental: o “lixo atômico”. Como destinar os rejeitos das usinas de maneira segura? No caso de Angra 1 e 2, esses rejeitos são divididos entre baixa, média e alta atividade; os primeiros são compactados e descartados, os de média atividade são solidificados ou imobilizados em materiais inertes, como o concreto, e os de alta atividade são armazenados em piscinas de resfriamento de combustível usado junto às centrais nucleares que os produziram. E quando não houver mais espaço? Olhe o nosso lixão, problema de saúde pública decorrente de anos de descarte inadequado de lixo domiciliar, e imagine esse problema potencializado com o caráter radioativo dos resíduos da geração de energia nuclear. Uma explosão, possível mas pouco provável, teria o mesmo efeito de uma bomba atômica e mataria milhares de pessoas. Já a exposição constante à radioatividade, no caso de vazamento, tem como principal efeito o desenvolvimento de tumores cancerígenos. E quando o urânio acabar? O petróleo também já foi abundante um dia... Como funciona A energia nuclear é resultante da separação do núcleo do átomo de urânio enriquecido (mais informações no box), reação que produz os perigosos elementos radioativos. No caso das usinas brasileiras, quatro barreiras físicas impedem a saída desses elementos para o meio ambiente: a vareta combustível, o vaso de pressão do reator, a contenção – uma espécie de “carcaça” de aço – e o edifício do reator, construção em concreto que envolve a contenção de aço. Segundo a Eletronuclear, um dos principais fatores estimulantes para a produção de energia nuclear no Brasil é o fato de o país possuir a sexta maior reserva de urânio do mundo, com 5,9% da disponibilidade mundial, além de ser um dos únicos nove países a enriquecerem o elemento. Também é levantada a questão da enorme quantidade de energia que pode ser gerada com a utilização de pouco material. “Uma simples pastilha de combustível nuclear com pequenas dimensões – um centímetro e meio de altura e menos de um centímetro de diâmetro – tem a mesma quantidade de energia que 450 metros cúbicos de gás natural ou uma tonelada de carvão”. Comunicado da Eletronuclear DO OUTRO LADO Plano para 2030 Pesquisadores dizem que é necessário desenvolver novas estratégias globais para lidar com o combustível irradiado e com os componentes radioativos. Até hoje os países não criaram uma estratégia coordenada para lidar com os resíduos nucleares. Uma das sugestões é o desenvolvimento de centros regionais, para onde os países poderiam enviar os seus resíduos para reciclagem, criando novas indústrias no processo. “No passado, havia a percepção do público de que a tecnologia nuclear não era segura. Entretanto, o que a maioria das pessoas não sabe é quanta ênfase a indústria nuclear coloca na segurança. Na verdade, a segurança está no coração da indústria. Com melhorias contínuas no projeto dos reatores, a energia nuclear continuará a cimentar a sua posição como uma parte importante do nosso fornecimento energético no futuro,” diz o professor Grimes. No entanto, os autores advertem que os governos ao redor do mundo devem investir mais na formação da próxima geração de engenheiros nucleares. Lixo atômico Reatores rápidos Os pesquisadores sugerem em seu estudo que, com base no desenvolvimento atual das tecnologias, novos tipos de reatores muito mais eficientes do que os reatores atuais poderiam ser colocados em funcionamento por volta de 2030. Hoje, a maioria dos países possui reatores de água leve, que utilizam apenas uma pequena porcentagem do urânio para gerar energia, o que significa que o urânio é usado de forma ineficiente. A equipe sugere que poderiam ser desenvolvidos novos “reatores rápidos”, capazes de usar o urânio com uma eficiência aproximadamente 15 vezes maior, o que significaria que as reservas de urânio poderiam durar mais tempo, garantindo a segurança energética dos países. Substituição Outra ideia é desenvolver reatores com peças substituíveis, de modo que eles possam durar mais de 70 anos, em comparação com os 40 ou 50 anos que as usinas podem operar atualmente. Os reatores estão sujeitos a condições adversas, incluindo a radiação e temperaturas extremas, o que significa que as peças degradam-se ao longo do tempo, afetando a vida do reator. Reatores com peças substituíveis se tornariam muito mais eficientes e seguros para funcionar durante longos períodos de tempo. Os cientistas do Imperial College London e da Universidade de Cambridge sugerem um plano em duas fases. Na primeira, os países que já possuem infraestrutura nuclear substituiriam ou aumentariam a vida útil das suas centrais nucleares. Isto prepararia o mundo para a segunda fase, de expansão global da indústria nuclear, por volta do ano de 2030. A equipe, que revisou uma série de estudos publicados por outros cientistas, afirma que seu roteiro pode preencher uma lacuna na produção de energia, na medida que as centrais nucleares antigas, assim como as plantas a gás e carvão ao redor do mundo estão sendo desativadas; e, segundo eles, ajudaria a reduzir a dependência do planeta dos combustíveis fósseis. “Nosso estudo explora as possibilidades entusiasmantes que um renascimento da energia nuclear pode trazer para o mundo. Imagine usinas nucleares portáteis que, no final de sua vida útil, possam ser enviadas de volta ao fabricante para reciclagem com total segurança, eliminando a necessidade de os países lidarem com resíduos radioativos. Com o investimento necessário, essas novas tecnologias poderiam ser viáveis. Preocupações sobre as mudanças climáticas, a segurança energética e o esgotamento das reservas de combustíveis fósseis têm estimulado um renascimento do interesse na produção nuclear de energia e nossa pesquisa define uma estratégia para o crescimento da indústria a longo prazo, incluindo o processamento e o transporte dos resíduos nucleares de uma forma segura e responsável,” entusiasma-se o professor Robin Grimes, um dos autores do estudo. ALEXANDRE LIMA RASLAN - promotor do Meio Ambiente "A sociedade de consumo depende da oferta de energia para a produção de bens e a disponibilidade de serviços. Evidente, portanto, que a coletividade tem responsabilidade neste ciclo, que será vicioso ou virtuoso a depender das opções adotadas e dos respectivos riscos e consequências que estejamos dispostos a assumir. A adoção da energia nuclear como fração relevante da matriz energética do País deve ser encarada com responsabilidade que, convenhamos, até agora na história deste País não foi assumida. A operação de usina nuclear em Mato Grosso do Sul merece reflexão e ponderação entre custos e benefícios. Enfim, e sobretudo, a sociedade deve decidir diretamente a respeito, por meio, por exemplo, de plebiscito." ALCIDES FARIA – Diretor Executivo da Ecoa "Mesmo sendo uma sociedade ‘energívora’, o Brasil não tem necessidade da geração nuclear para que sua economia se mova e sua população desfrute do conforto oferecido pela energia elétrica. O potencial de diferentes fontes renováveis, da eficiência energética e mudança de padrões são imensos e designam os caminhos do futuro. No caso da área solar, uma revolução se avizinha com fortes impactos na economia: a expansão do aquecimento de água para uso cotidiano, somado ao chuveiro ‘flex’, determinará impactos positivos na economia em geral e a familiar. Diante de um quadro com tantas possibilidades, a pergunta que vem é: por que usinas nucleares e seus imensos riscos em MS e outras regiões do País? Interesse em ser potência nuclear alcançando escala na produção de combustível para abastecimento?” MAURÍCIO TOMALSQUIM - Presidente da EPE “Como o potencial hidrelétrico brasileiro, que atualmente é a nossa prioridade, começa a se esgotar dentro de aproximadamente 20 anos, a energia nuclear passará a ser uma boa opção para a expansão do parque gerador nacional, complementada por fontes alternativas como a eólica e a biomassa." ANNA MENDO SANTOS – analista ambiental do Ibama/MS “O ponto mais importante nessa questão é o conhecimento e a participação da comunidade. É explicar a ela quais os benefícios – empregos, desenvolvimento econômico – e quais os prejuízos da implantação de uma Usina Nuclear, sobretudo o risco de acidentes. A população sul-mato-grossense está pronta para assumir esse risco? Para responder a essas e outras perguntas, são realizadas audiências públicas durante o processo de licenciamento; mas, antes disso, a população precisa ser apresentada ao tema, para que comece a conhecer e formar opinião sobre o assunto.” |
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